“Idílio” é um álbum que nasce em preto e branco, nas palavras próprias de Marina de la Riva. Não é primogênito. Da mesma lavra, vem uma possível dívida a qual alguns insistem em bancar existência nos cantos contemporâneos do país, como se estívessemos em uma adulação forçosa e constante para com o passado. De la Riva certamente é um possível alvo deste argumento. O consolo é que Lobão e sua expressividade artística em seu trato com as câmeras – e nunca mais com suas guitarras – já garantiram-no na direção de Maria Rita. Ou seja, a luta está num front no qual uma aspirina cortada pela metade já pode dar jeito na dor de cabeça momentânea.
De alguma forma, essa ponte latinoamericana que busca Marina e que é frequentemente citada pelos textos promocionais (ainda que alguns citem-se como críticos) terá que ser superada em suas primeiros reflexos de euforia e repulsa. Não há motivos para euforia porque a carioca comumente associada a seu pai e seu avô cubanos já havia registrado seu debute nessa ilha e o sabor do seu canto fresco – pelo surgimento – se enroscava a essa busca pelas texturas de seus laços.
Marina parece denunciar um péssimo jornalismo cultural deste momento pois os registros de sua persona são sempre pouco encantadores. Se não é culpa dos profissionais a busca por respostas como “sei que dou trabalho na hora de colocar meu CD em uma prateleira de lojas / meu tempo não é o da indústria, é o mesmo de uma fruta. Preciso amadurecer minhas produções para depois vendê-las”, então é hora de encerrar as ligações biográficas porque o interessante parece mesmo estar na música. E, tal como foi com Marina de La Riva, de 2007, em Idílio, a clareza do entorno que envolve a cantora é singular.
Antes de uma das gravações mais belas do ano, “Y”, “Idílio” abre com “Añorado Encuentro”, de Piloto Bea e Vera Morua, e quando pronucia “Hoy”, Marina diz do hoje e, ao mesmo tempo, encanta o leigo como se dissesse “oi”, como se mesmo não importasse o porquê do espanhol, o porquê do português. É um dos discos de 2012 pois encanta como disco. De voz que excita a cantora em torno de sua capacidade de interpretar, posto que esta é longe do exagero, de la Riva é, além de tudo, uma que preenche a cota que a ignorância não deixou umas tantas outras vozes femininasm, que pareciam levar aos encartes todo o cheiro do restaurante vazio na figura de repertório fraco (e, por vezes, sem nenhuma esperteza apelativa), preencherem.
Ao lado de Céu e Ava Rocha, é uma das cantoras mais interessantes. Com Pupilo, requisitado baterista da Nação Zumbi, constrói “Idílio” na combinação dos cancioneiros cubano e brasileiro, em um elenco que inclui Raul Souza e Pepe Cisneros, arranjo de Luizinho 7 Cordas para “Deixa Que Amanheça”, conhecida na voz de Emilinha Borba, uma peça mais deconhecida de Vinicius de Moraes, “Ausência” e o choro de “Propriedade Particular”, samba de Lulu Santos que fora deixado para comércio na loja iTunes em versão deluxe.
Infelizmente, parece irresistível às rádios e ao público o ocaso desse universo de interpretações femininas da MPB, todas permeadas de vícios ao lidar com a tradição. “Idílio” dificilmente conseguirá romper essa percepção pois não nasceu pra isso. Contraditoriamente, “Idílio” é um dos melhores de 2012 mas não é de agora. Idílio se comporta não por ser conservador, mas por ser transgressor uma vez que os lábios femininos entorpecem com tanto batom, gosto de cerveja e oportunismo entoados e estocados nas prateleiras poeirentas das lojas que venderam o álbum não só sem “Propriedade Particular”, mas também sem “Tu Me Acostumbraste”, bolero de Frank Domingues.
Estreante em disco, mas de sólida carreira nas noites paulistanas como vocalista de grupos do naipe do Alta Fidelidade, Marina de la Riva precisava pagar uma dívida. Filha de uma mineira com um exilado cubano, a cantora ouve desde que nasceu em Baixa Grande da Leopoldina, município de Campos dos Goytacazes (RJ), os sons da ilha, mas demorou um tanto para incorporar ao seu trabalho. “A música sempre foi um negócio tão importante pra mim que não pensava em me profissionalizar. Era uma intimidade com a família, eram os discos da minha avó, uma música que meu pai cantava. A música era como uma placenta passando informações emocionais e intelectuais. Uma forma de viver a saudade deles”, explicou em conversa com a reportagem do Gafieiras. No entanto, é possível notar em seu disco de estréia, Marina de la Riva (Mousike/Universal, 2007), que a cantora conseguiu resolver estas questões internas. Mas como?
Após se mudar para São Paulo, Marina começou a atuar na noite, geralmente com um repertório jazzístico, e ter aulas de canto lírico. Tudo ia muito bem, mas ainda não era isso. Algo faltava. “Fui à premiação do Grammy em 2004 e vi o show do [pianista cubano] Bebo Valdés com o [cantor espanhol] Diego Cigala. Nem consegui ver direito o show porque chorei o tempo todo. Ali, naquela hora, entendi o que estava doendo tanto em mim e o que tanto procurava fora sendo que a história era dentro. No vôo de volta ao Brasil peguei um caderno e escrevi todo o projeto deste disco: onde ia gravar, como ia gravar, a qualidade dos músicos, a sonoridade, o tipo de microfone, o repertório, gravações em Cuba”. A princípio, Marina não iria gravar nada brasileiro, mas quando pisou em solo cubano sentiu vontade de colocar seu lado materno para cantar. Viu que precisava unir musicalmente as duas pontas de sua vida e seguir em frente (by Vício Auditivo )